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Publicado em 30/04/2014
Perigo: Contaminação das águas subterrâneas por hidrocarbonetos

Compostos nocivos à saúde estão presentes nos combustíveis e, quando entram em contato com a água subterrânea, podem trazer consequências para o meio ambiente e para a saúde humana

Há 500 milhões de anos, a quantidade de água na Terra é constante. De toda a água do planeta, 97%, a maior parte, é salgada e está nos mares e oceanos. Apenas 3% é doce e, excluindo a água congelada dos polos, a quantidade de água doce no planeta cai para 0,6%. Deste total, 98% estão nos aquíferos e apenas 2% nos rios e mares. Nesta comparação é possível perceber a importância da água subterrânea para a humanidade. Mas nem sempre essa água recebe a devida atenção mesmo sendo a contaminação por combustíveis derivados de petróleo uma preocupação crescente no Brasil e mais ainda nos Estados Unidos e Europa.

Os combustíveis possuem compostos especialmente nocivos à saúde como o benzeno, tolueno, etilbenzeno e xilenos – hidrocarbonetos denominados BTex. Ao contaminar as águas subterrâneas, esses compostos inviabilizam fontes alternativas de abastecimento e, quando ingeridos, dependendo da concentração e tempo de exposição, podem afetar o sistema nervoso central. O benzeno, o mais tóxico dos compostos, já está associado a cânceres.

Segundo dados do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), o Brasil possui 38 mil postos de combustível. Um número significativo destes postos foi construído nas décadas de 1970 e 1980. Mauro Banderali, especialista em instrumentação ambiental da Ag Solve, observa que “como a média de vida útil dos tanques subterrâneos é de 25 anos, estima-se que a maioria deles já esteja comprometida, especialmente em estados que não estimularam, através de legislações, a adequação destes postos”.  Banderali explica que “o metal do tanque fica diretamente exposto à terra molhada, o que acelera o processo de enferrujamento e deterioração, se a camada protetora exterior estiver danificada. Nessa situação, fatalmente há vazamentos que provocam contaminação da água e do solo, o que pode resultar em gastos imensos com limpeza e por isso é importante fiscalizar anualmente a integridade do tanque.”

O diretor de Controle e Licenciamento Ambiental da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Geraldo do Amaral Filho, comenta que a contaminação da água subterrânea por derivados de petróleo utilizado no abastecimento de veículos origina-se basicamente do armazenamento em tanques, linhas de transportes do tanque para bomba e, eventualmente, por  vazamentos na região das bombas. “Pode ocorrer também nas refinarias, pois, ao transformar o petróleo nos derivados, pode haver contaminação do material na área de processo industrial. Além disso, podem ocorrer nas bases de distribuição destes produtos, grandes reservatórios metálicos que os armazenam para que eles possam ser transportados via caminhão para o posto e, em uma pequena escala, há risco de contaminação em acidentes rodoviários. Quando uma carreta de caminhão tanque que está transportando combustíveis tomba, o produto pode escoar pelo ambiente, pelas galerias pluviais, se infiltrar no solo ou cai direto em um córrego”, especifica.

Riscos para a saúde humana e para o meio ambiente

A contaminação dos corpos d’água por hidrocarbonetos pode representar um risco para os ecossistemas aquáticos e para a saúde humana. “Os efeitos variam, dependendo do composto. Alguns hidrocarbonetos são carcinogênicos e, portanto, podem aumentar o risco de desenvolvimento de câncer. Outros são tóxicos e podem causar diversos efeitos à saúde humana e aos organismos aquáticos”, comenta Banderali.

José Tavares Araruna Júnior coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio) comenta que a consequência da contaminação da água subterrânea por estes compostos, “em termos de saúde pública, dependerá do tipo de hidrocarboneto. Por exemplo, a gasolina ou o óleo diesel podem conter benzeno, elemento altamente carcinogênico”. Segundo o docente, como qualquer outro tipo de contaminação, a população deve tomar cuidado com esse tipo de vazamento porque a água subterrânea, que geralmente é bem menos suscetível à contaminação do que a água superficial, pode estar contaminada. “A gente pensa que a água subterrânea vai estar mais limpa do que a superficial, mas em algumas áreas, pode ocorrer o contrário”, enfatiza.

Segundo Geraldo do Amaral Filho, da Cetesb, os hidrocarbonetos são uma série de compostos que possuem características distintas. “Cada um tem a sua periculosidade e a sua toxicidade. Em conjunto esses produtos, se confinados em ambientes fechados, podem gerar gases e riscos de explosão, então há uma série de impactos no ambiente”. A Portaria 2914/2011 do Ministério da Saúde estabelece um padrão de potabilidade para cada composto encontrado na água. “Não há um padrão de potabilidade específico para hidrocarbonetos, existem limites para alguns dos compostos que estão dentro dessa grande família. O padrão para benzeno, que é o mais perigoso deles, é de 5 µg/l (microgramas por litro), o estireno é de 20 µg/l, o etilbenzeno é 300 µg/l, o tolueno é 700 µg/l, o xileno é 500 µg/l, então esses são os contaminantes mais comuns, que estão presentes na gasolina. Essas são concentrações muito baixas, a micrograma é uma grama dividida por um milhão”, detalha.

Importância da fiscalização e monitoramento

A água subterrânea é uma fonte importante para o abastecimento da população, tanto coletivo como individual. Quando a contaminação por estes produtos acontece, o uso da água fica inviável. “A Portaria 2914 do Ministério da Saúde, que trata do padrão de potabilidade da água, estabelece uma frequência de monitoramento. Existem dezenas de parâmetros que o responsável deve avaliar: alguns com frequência diária, outros mensal; a frequência varia de acordo com a importância que o parâmetro tem para a saúde. Não existe uma avaliação específica para hidrocarboneto. O que temos é uma avaliação da qualidade da água que vai ser utilizada para o abastecimento e dentre esses parâmetros alguns estão relacionados com a família dos hidrocarbonetos”, relata o diretor de Controle e Licenciamento Ambiental da CETESB, Amaral Filho.

Conforme explica Mauro Banderali, a tecnologia já pode colaborar para detectar e monitorar os vazamentos e contaminações nas águas subterrâneas. "Os aparelhos Uvilux são instrumentos de alerta para detecção de acidentes e/ou vazamentos, permitindo às empresas de saneamento tomar as medidas necessárias no que se refere ao bombeamento de água para o abastecimento público, ao monitoramento de processos e a medições pontuais ou permanentes em campo”. O equipamento Uvilux é destinado à detecção do contaminante hidrocarboneto (HC) em sua fase bruta (petróleo) ou refinada (combustíveis, benzeno, acetona e toda a cadeia de HC).

Araruna explica que quando um local apresenta o solo contaminado por qualquer tipo de hidrocarboneto, é bastante provável que a água subterrânea também tenha sido atingida. “A hidrogeologia considera solo não só as partículas sólidas, mas também o fluido que está entre as partículas. Então, a água subterrânea é considerada parte do solo e, geralmente, esses contaminantes interagem intensamente com as partículas sólidas e a fase líquida. Então se está em um, provavelmente também está no outro”. Segundo o coordenador da PUC Rio, Araruna Júnior, existem vários métodos pra fazer a remediação da água subterrânea, o que depende das características da hidrogeologia local. “Geralmente, o método mais utilizado é o bombeamento, onde você retira a água subterrânea e faz o tratamento”, pontua.

Postos de combustíveis lideram ranking das áreas contaminadas em SP

O último relatório de áreas contaminadas do estado de São Paulo publicado pela CETESB, em 2013, referente aos dados de 2012, identificou 4.572 locais contaminados, em diferentes estágios: na fase de remediação, áreas já remediadas, áreas em fase de investigação ou em fase de monitoramento. “Quando focamos nos postos de combustíveis, nós identificamos que destas 4.572 áreas contaminadas, 3.510 referem-se a postos de combustíveis. Essa quantidade é resultado de um programa de gestão de áreas contaminadas que a CETESB vem desenvolvendo desde 2000, que tratou do licenciamento dos postos. O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) estabeleceu uma resolução tornando obrigatório o licenciamento deste tipo de atividade e, por esta razão, a CETESB implementou um programa específico para isso. A Companhia convocou todos os postos de São Paulo, cadastrou-os e estabeleceu um prazo para que procedessem com a regularização, ou seja, verificassem a situação. Em paralelo ao processo de investigação do eventual passivo, foram feitas as adequações das instalações para impedir a contaminação de áreas onde os vazamentos não foram detectados”, detalhou Amaral Filho.

Uma série de dispositivos e instalações foi exigida no processo de adequação dos postos paulistas, com a finalidade de garantir a segurança para eles. “Hoje a convocação já foi atendida, praticamente 98% dos postos já fizeram a reforma. Os que não fizeram estão sendo interditados e à medida que o prazo concedido vence, estes postos não podem funcionar mais. Também foram desenvolvidas campanhas para remediação daqueles postos que indicaram existência de um passivo”, afirma o diretor. Para fazer a remediação, várias técnicas podem ser utilizadas. “A remediação dependerá da natureza da contaminação, da extensão e das características do local. Técnicas como a remoção do solo, remoção da fase livre, extração do vapor do solo, oxidação química (quando você joga um produto para reagir com o contaminante e transformá-lo em algo que não cause impacto ao ambiente) podem ser utilizadas para fazer a remediação. Após atingir a meta, deve-se fazer o monitoramento durante dois anos, para avaliar se a meta foi cumprida”, aconselha Geraldo do Amaral Filho.

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